artigosGestão de ArmazénsPerdas intrínsecas na armazenagem de grãos

Perdas intrínsecas na armazenagem de grãos

A cadeia produtiva que integra o agronegócio é composta por: produção (lavoura), armazenagem, agroindústria e distribuição. Dentro dos dois primeiros itens, possuímos fatores que influenciam na qualidade dos grãos, como características varietais, condições de desenvolvimento da cultura, estudos dos solos, manejo agronômico na produção, método e sistema de secagem, manejo tecnológico da conservação e, por último e não menos importante, o sistema de armazenagem.

Investimos em todas as etapas do processo de produção: mecanização, genética, correção de solos, defensivos e herbicidas — muitos destes com auxílio e aplicação de sistemas como GPS, softwares de última geração e monitoramento à distância, por meio de smartphone e outros. Quando focamos o tema referente à armazenagem e conservação de grãos, percebemos que pouco avançamos na prática de trabalhar este conceito no Brasil, nos últimos anos. Possuímos perdas de até 7% (qualitativas e quantitativas), conforme a cultura, por não termos o conhecimento completo do que significa e da importância de saber armazenar e capacitar a equipe de trabalho para reduzir estas perdas. As perdas que observamos de forma mais prática são as quantitativas, ou seja, peso. Nas qualitativas, notamos as perdas através de infestações de insetos, fungos e na classificação por percentuais de avariados, aos quais chamamos de perdas visíveis.

Existem perdas que não são perceptíveis, mas afetam muito a qualidade final dos produtos beneficiados. Na armazenagem, quanto mais elevada a temperatura à qual os grãos estão expostos, maior será o processo respiratório (metabolismos) dos grãos, dos microrganismos associados e das reações químicas que promovem a oxidação e alterações nos componentes dos grãos. Para exemplificar, vamos observar os grãos de milho, soja e arroz quanto ao mau armazenamento, quando expostos à elevação de temperatura e umidade fora do padrão.

O produto milho, cujo principal item de constituição é o amido, tem esse componente como o primeiro a ser consumido pelo grão durante seu processo metabólico. Dessa forma, quanto maior for a aceleração da respiração, maior será o consumo de amido, reduzindo esse principal item nutritivo, assim como a proteína bruta, os lipídeos e com aumento da acidez. São perdas que iremos perceber quando estivermos beneficiando para a geração de alimento, tanto para consumo humano como também para animais. O produto soja tem como principais constituintes a proteína e os lipídeos, com alto valor agregado para o potencial industrial. Saber armazenar preservará a acidez do óleo e a solubilidade proteica. O produto arroz, quando mal conservado, com aumento da taxa respiratória, apresenta ocorrência de processos de fermentação, ataque de insetos e desenvolvimento de fungos, que irão refletir na qualidade do produto, com alterações no sabor e na aparência, inviabilizando o consumo humano.

Dessa forma, é importante reforçar que a conservação e armazenagem de grãos estão alicerçadas em três grandes sistemas, com a premissa de já termos executado a secagem e a limpeza de acordo com os padrões atuais de qualidade de processamento e com as especificações (instruções) do fabricante:
Primeiro – Sistema de Monitoramento da Massa de Grãos (termometria digital);
Segundo – Sistema de Aeração (ventiladores e chapas perfuradas para passagem de ar);
Terceiro – Sistema de Exaustão Cycloar (aparelhos instalados na cobertura dos silos verticais e armazéns para retirada da massa de ar quente e saturado estacionário entre o telhado e a parte superior da massa de grãos).

Complementam-se alguns itens relevantes, como a profilaxia do ambiente, controle de pragas e gestão de riscos. As unidades armazenadoras que monitoram e utilizam essas ferramentas e princípios têm como resultado uma segurança em todo o seu processo, reduzindo os riscos de alteração na integridade dos grãos.

A conclusão a que chegamos é que a armazenagem de grãos é um processo extremamente complexo, que exige um manejo preventivo para reduzir as consequências mencionadas acima no quarto parágrafo. Perdas qualitativas possuem consequências que, no armazenamento, não têm como ser avaliadas — somente quando estivermos beneficiando é que identificaremos alimentos com baixo teor nutritivo e contaminados, que prejudicam a segurança alimentar. Fica esta mensagem aos leitores: “O armazenador trabalha com alimento.” Essa massa de grãos que recebemos na moega da unidade será encontrada nas gôndolas dos mercados.

Engº Adriano Mallet – Diretor técnico da Agrocult

E-mail: adrianomallet@agrocult.com.br

Instagram: @adriano.mallet


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *